A poesia do cotidiano extrapola a intrínseca habilidade de criar memórias multissensoriais. Sinestésico, o ir e vir à feira, o abaixar para sentir o aroma dos temperos in natura, o carregar das sacolas na volta para casa, cheias de legumes e frutas frescos, entra numa categoria que a ciência classifica como atividade física vigorosa intermitente no estilo de vida (ou, Vilpa, como é abreviada a sigla, em inglês) – uma fórmula simples que, segundo recente descoberta, ajuda a evitar a morte prematura por uma série de doenças, incluindo câncer e cardiopatias.
O estudo, realizado pela Universidade de Sidney, na Austrália, foi publicado na revista Nature Medicine. De acordo com os autores, essa foi a primeira pesquisa com foco nos benefícios desse tipo de atividade física para a saúde.
E o resultado foi surpreendente: o conjunto de movimentos curtos e intensos, com duração de 1 a 2 minutos, distribuídos ao longo do dia, foi associado à redução de 40% na mortalidade prematura.
Vale quase tudo
No guarda-chuva da sigla entram movimentos cotidianos gerais, como a caminhada para o trabalho, a corrida durante o pega-pega com os filhos ou o sobe-e-desce de escadas, no caso de quem mora num sobrado.
Atividades que aparentam não ter potencial atlético, mas que impactam diretamente no funcionamento dos mecanismos fisiológicos do corpo.
Para entender como as pílulas de esforço físico reverberam no organismo de quem declara não ser praticante de exercícios físicos e esportes, os pesquisadores usaram os dados de rastreadores de pulso do UK Biobank, um banco de dados biométricos do Reino Unido.
Foram comparadas informações coletadas ao longo de sete anos por mais de 25 mil ingleses que se declaram sedentários.
A partir dessa avaliação, os pesquisadores concluíram que qualquer atividade registrada pelo grupo fazia parte do cotidiano e se enquadra no que engloba a sigla Vilpa.
Assim, chegou-se ao total de 89% dos voluntários linkados à lista de quem realiza alguma atividade física vigorosa intermitente.
O tempo médio diário que envolvia algum esforço físico intenso era de 6 minutos, divididos em sessões de 45 segundos.
A análise levou à conclusão de que quanto mais sessões, maiores as vantagens para a saúde já que 11 sessões diárias foram associadas à redução de 69% do risco de morte por doenças cardiovasculares e 49% por câncer.
A comparação foi feita com os integrantes do grupo que não registrou nenhum exercício não intencional.
“Aumentar a intensidade das atividades diárias não requer comprometimento de tempo, preparação, filiação a clubes ou habilidades especiais. Trata-se simplesmente de aumentar o ritmo da caminhada ou fazer as tarefas domésticas com um pouco mais de energia”, disse o autor Emmanuel Stamatakis, professor de Estilo de Vida e Saúde da População no Centro Charles Perkins da Universidade de Sydney.

Não substitui
Embora o estudo da Universidade de Sidney comprove os benefícios de atividades físicas não intencionais, a realização dessas pequenas tarefas não substitui a prática regular de exercícios físicos.
A manutenção da boa saúde está atrelada, segundo a Organização Mundial de Saúde, à realização constante de atividades.
A recomendação é de, pelo menos, 150 minutos semanais para os adultos – o equivalente à média de 30 minutos diários.
Somar a beleza do cotidiano aos exercícios físicos tidos como compromisso na agenda leva ao equilíbrio na busca por uma vida mais saudável e longeva.